Papa canoniza dois papas, fato inédito em 2 mil anos
Roma
e Vaticano vestem-se neste domingo (27) com as suas cores mais
vibrantes para a canonização de João XXIII e João Paulo II, um
acontecimento inédito em dois mil anos de história, repleto de
significados e interpretações.
Dois papas que deixaram marcas indeléveis e moldaram o que a Igreja
Católica é hoje, mas que foram também personalidades muito distintas,
representando sensibilidades opostas – ao proclamá-los santos em
simultâneo, Francisco envia uma mensagem de unidade, essencial para as
reformas que tem na agenda, numa iniciativa que não escapa a polémicas,
escreve Ana Fonseca Pereira, do Publico.
A Santa Sé não gosta que as decisões papais sejam lidas à luz da
estratégia, mas os observadores não têm dúvidas: “a canonização de um
Papa é um eminente acto de política eclesiástica”, diz Massimo Faggioli,
historiador da Igreja, explicando ao jornal canadiano The Star que
a prática, caída em desuso nos últimos séculos, parece estar de
regresso, ao ponto de se criar a ideia de que se não foi iniciado o
processo para a sua beatificação (a primeira etapa) “os fiéis poderão
pensar que talvez ele não tenha sido um bom sucessor de Pedro”.
Uma ideia reforçada depois dos gritos de “Santo Subito!”
(Santo já!) ouvidos na Praça de São Pedro no funeral, em 2005, de João
Paulo II, o carismático “atleta de Deus” que foi inspirador e
protagonista na queda do comunismo, guardião da ortodoxia doutrinal, e o
primeiro Papa verdadeiramente global. O seu sucessor, Bento XVI,
dispensou os cinco anos de espera entre o momento da morte e o início do
processo, abrindo caminho àquela que neste domingo se confirma como a
canonização mais rápida de sempre – um recorde que faz jus a Karol
Wojtyla, que, nos 27 anos do seu pontificado, proclamou mais santos do
que todos os antecessores juntos.
A esta dimensão, Francisco acrescentou uma outra quando, em Julho
passado, ao dar o aval final ao processo de João Paulo II, decidiu
canonizar também João XXIII, usando prerrogativas papais que lhe
permitem dispensar a confirmação de um segundo milagre – o Papa italiano
tinha sido beatificado por João Paulo II em 2000. Francisco não esconde
a sua afinidade, no trato e na acção pastoral, com aquele a que os
fiéis continuam a chamar, 50 anos depois da sua morte, “o Papa bom”,
eleito como ele aos 77 anos e que, sem ninguém o esperar, se transformou
no Papa do aggiornamento e que colocou as questões da pobreza, da paz e dos direitos humanos no centro do discurso da Igreja.
Os dois papas “são muito populares entre diferentes grupos.
Canonizá-los ao mesmo tempo é um acto político através do qual
Francisco, à semelhança do seu antecessor, Bento XVI, quer sublinhar a
continuidade na história recente da Igreja”, disse à rádio pública
holandesa o padre Marc Lindeijer, historiador na sede dos jesuítas, em
Roma. John Allen, vaticanista e editor do jornalBoston Globe, é
ainda mais directo: “João XXIII é um ícone para os progressistas,
lembrado como o Papa que lançou o reformador Concelho Vaticano II (...).
João Paulo II é o herói dos conservadores, o Papa que derrubou o
comunismo e denunciou a ‘cultura da morte’ por trás dos que defendem a
liberalização do aborto (…). Se tivesse canonizado apenas um, isso seria
interpretado como uma vitória para um dos lados.”
Há também quem veja na simultânea elevação aos altares a forma
encontrada pelo Papa para evitar o culto de personalidade em torno de
João Paulo II – mesmo que a popularidade daquele que foi uma das figuras
do século XX tenha sido ofuscada pelo entusiasmo que ele próprio
despertou – e de, ao mesmo tempo que tenta reconciliar sensibilidades
distintas, reafirmar o caminho de abertura iniciado no Concílio Vaticano
II. “Ele está a tentar unir a Igreja num terreno comum que pensa que
todos partilham”, explica Faggioli. Francisco, que pôs já em marcha a
reforma da Cúria, presidirá em Outubro ao sínodo dos bispos onde se vai
discutir a resposta da Igreja às alterações na estrutura das famílias
e, como em 1962, será essencial a aproximação entre conservadores e
progressistas.
Roma preparou-se para receber um milhão de peregrinos, 43 chefes de
Estado e de Governo, o que obriga a um impressionante dispositivo
logístico. Pela cidade multiplicaram-se homenagens aos dois antigos
pontífices e as cerimónias no Vaticano – que se esperam menos pomposas
do que no passado, à imagem da contenção ordenada por Francisco – serão
transmitidas para todo o mundo. Confirmada está a presença de Bento XVI,
o “quarto Papa” desta cerimónia inédita.
E, mesmo que os italianos estejam a redescobrir com entusiasmo o seu
penúltimo Papa e os vaticanistas tenham voltado a olhar para o impacto
da “janela aberta” pelo Concílio, este é um acontecimento planetário por
causa de João Paulo II. Da sua Polónia natal chegaram a Roma milhares
de peregrinos, as lojas e as ruas voltaram a encher-se com o rosto de
Wojtyla e olha-se pela terceira vez (depois da morte e da beatificação,
em 2011) para o seu legado.
Para o seu trajeto ímpar, de Cracóvia aos altares dos cinco
continentes, o seu carisma, a imensa influência doutrinal e a lenta
degradação física aos olhos do mundo. Mas também aquilo que a AFP
descrevia como “as zonas-sombra” do seu pontificado, a começar pelo
fechar de olhos às denúncias de pedofilia.
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